segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A Drummond... vamos drummondiar...




Ao mestre com carinho!




E mais um ano que se encerra.




Tempos de renovação.


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Passagem do ano




O último dia do ano


não é o último dia do tempo.


Outros dias virão


e novas coxas e ventres te comunicarão o


[ calor da vida.


Beijarás bocas, rasgarás papéis,


farás viagens e tantas celebrações


de aniversário, formatura, promoção, glória,


[ doce morte com sinfonia e coral,


que o tempo ficará repleto e não ouvirás o


[ clamor,


os irreparáveis uivos


do lobo, na solidão.




O último dia do tempo


não é o último dia de tudo.


Fica sempre uma franja de vida


onde se sentam dois homens.


Um homem e seu contrário,


uma mulher e seu pé,


um corpo e sua memória,


um olho e seu brilho,


uma voz e seu eco,


e quem sabe até se Deus...




Recebe com simplicidade este presente do


[ acaso.


Mereceste viver mais um ano.


Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos


[ séculos.


Teu pai morreu, teu avô também.


Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras


[ espreitam a morte,


mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,


e de copo na mão esperas amanhecer.




O recurso de se embriagar.


O recurso da dança e do grito,


o recurso da bola colorida,


o recurso de Kant e da poesia,


todos eles... e nenhum resolve.




Surge a manhã de um novo ano.




As coisas estão limpas, ordenadas.


O corpo gasto renova-se em espuma.


Todos os sentidos alerta funcionam.


A boca está comendo vida.


A boca está entupida de vida.


A vida escorre da boca,


lambuza as mãos, a calçada.


A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

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